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10 perguntas e respostas sobre Saúde Mental


As doenças mentais foram o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), realizado no mês de janeiro. Indicadores apontam que 11,5 milhões de brasileiros têm depressão e que a depressão é a segunda causa de afastamento do trabalho no mundo, o que demonstra a relevância do campo da saúde mental.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é o país com maior número de pessoas ansiosas, com cerca de 9,3% da população, e o quadro de ansiedade se agravou durante a pandemia da Covid-19, conforme apontaram resultados preliminares de uma pesquisa do Ministério da Saúde.

Os transtornos mentais podem acometer toda e qualquer pessoa, mas ainda assim são estigmatizados na sociedade brasileira, conforme propôs o tema da redação do Enem. Para dar espaço a esse assunto importante, a série “Conectados com o Professor” traz uma entrevista com o Dr. Arlindo Gomes Ribeiro, médico psiquiatra e docente no curso de Medicina no Campus Passos da Faculdade Atenas. 

1)    O que são transtornos ou doenças mentais?
Dr. Arlindo Ribeiro: Temos transtornos ou doenças mentais, quando ocorrem alterações da afetividade, do comportamento e da conduta; ou seja, alguma alteração psíquica com intensidade e frequência. Paciente pode se apresentar com humor deprimido, delírio de grandeza, delírio de ciúmes, alucinações visuais e auditivas, ansiedade e sintomas de pânico.

2)    Quais os tipos de doenças mentais mais frequentes na população?
Dr. Arlindo Ribeiro: Transtornos do humor (depressão maior e transtorno bipolar), esquizofrenia, transtornos de ansiedade (transtorno de pânico, agorafobia, fobia social e transtorno de ansiedade generalizada), transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de estresse pós-traumático, transtorno de adaptação, transtornos alimentares, transtorno do sono-vigília, transtornos de personalidade e transtornos aditivos. Atualmente, a doença mental que tem predominado com mais frequência é a depressão. A ansiedade também tem aumentado, assim como quadros obsessivo-compulsivos e transtorno de pânico. 

3)    Existem tipos de transtorno mental mais graves que outros?
Dr. Arlindo Ribeiro: O paciente, quando chega a procurar tratamento psiquiátrico, provavelmente se encontra em um estado grave; o sofrimento relatado por ele é catastrófico e desesperador. Em um paciente com esquizofrenia, por exemplo, as alucinações e o medo podem levá-lo a um comportamento agressivo; do mesmo modo como um paciente depressivo, que sente que sua vida perdeu o sentido, pode pensar em cometer suicídio. Por isso, não temos como classificar um ou outro transtorno como mais grave. Sempre que um paciente procura por uma consulta psiquiátrica, independente do motivo, o sofrimento psíquico é bastante intenso.

4)    As doenças mentais são prevalentes em algum público específico ou podem acometer toda a população? 
Dr. Arlindo Ribeiro: No meu percurso como psiquiatra pude constatar que tanto o adoecimento psíquico quanto a sua prevalência independem do meio sociocultural. A doença mental pode acontecer em qualquer momento da nossa vida.

5)    Estudos estrangeiros e nacionais reportam um aumento nos índices de doenças psiquiátricas nos últimos anos. A que fatores se deve esse crescimento?
Dr. Arlindo Ribeiro: Na história da humanidade, sempre ocorreram mudanças, transformações que desencadearam estresse e adoecimento mental na população. O estresse pós-traumático causado por guerras, o estresse face à violência urbana e outras situações como a epidemia que estamos enfrentando hoje. Pela minha experiência clínica, quando implantávamos ambulatório de saúde mental, percebíamos o quanto a procura para o atendimento se tornava crescente. O sofrimento mental está presente na condição humana.

6)    Quais os sintomas ou sinais que indicam um problema de saúde mental?
Dr. Arlindo Ribeiro: Sintomas que podem ser indicativos são insônia ou sonolência excessiva, perda de ânimo ou apatia, perda da esperança em relação à própria vida, ansiedade antecipada, ou seja, pessoas que “sofrem de véspera” o tempo todo, que são demasiadamente preocupadas; outras com um sofrimento psíquico muito grande, acarretando uma angústia profunda, perda ou aumento descontrolado do apetite, desespero, quando a pessoa não quer sair de casa e evita o convívio social, choro sem motivo aparente, irritabilidade, ‘explosão’ ou mau humor, problemas de esquecimento; pensamento delirante e alucinações. As causas para um transtorno mental podem ser exógenas, ou seja, devido a um acontecimento que desencadeou um trauma ou estresse, e podem também ser endógenas, devido a uma alteração química no organismo. O paciente, quando busca atendimento dizendo “Doutor, estou deprimido, mas na minha vida está tudo bem, não aconteceu nada de ruim”, ele próprio não identifica um motivo aparente para o estado depressivo.

7)    Como deve ser feito o diagnóstico de um problema de saúde mental?
Dr. Arlindo Ribeiro: O diagnóstico da doença mental deve ser feito por um profissional especializado, o psiquiatra. 

8)    Quais os tratamentos disponíveis?
Dr. Arlindo Ribeiro: Os tratamentos envolvem medicação, psicoterapia, terapia ocupacional e, em casos gravíssimos, pode haver a necessidade de internação hospitalar. 

9)    A pandemia da Covid-19 e o isolamento social contribuíram para o surgimento ou agravamento de transtornos mentais.  O que as pessoas podem fazer neste momento para manter uma boa saúde mental?
Dr. Arlindo Ribeiro: Numa situação como essa, é preciso manter a mente ocupada com boas leituras, bons filmes, boa conversa, criar uma terapia ocupacional para evitar a ansiedade. Cuidar do jardim, do pomar. A pessoa tem que se reinventar, para fazer essa travessia de maneira menos angustiante, ou menos entediante. Lembrando Machado de Assis*: A pena da galhofa, tingida pela tinta da melancolia. Importante mencionar que o medo da contaminação pelo coronavírus tem feito parte do nosso cotidiano, mas o medo é uma emoção também necessária e saudável, propiciando-nos um contato maior com a “real” natureza da realidade que nos ameaça. O medo nos põe em contato com nossa extrema vulnerabilidade, fragilidade e finitude. Ele é benéfico na medida em que nos impele a nos protegermos, a tomarmos os cuidados necessários durante a pandemia. Então, no sentido tolerável, cabível, o medo atua como uma proteção. 

10)    O campo das doenças mentais ainda é estigmatizado. Como podemos e devemos combater esse preconceito?
Dr. Arlindo Ribeiro: Como já dissemos, toda e qualquer pessoa está sujeita a ter um adoecimento mental. Mas existem o comportamento de negação e o preconceito. Ouço muitas vezes: “Doutor, vim aqui porque me trouxeram”. Então, é preciso compreender que a doença mental existe, que pode acometer qualquer indivíduo e que deve ser vista como qualquer outra doença, passível de tratamento. Doença mental não é para ser negada, mas para ser vista e cuidada! Temos que fazer o tratamento, multiprofissional, efetivo, baseado nas evidências, sem estigma, sem preconceito, com o devido acolhimento a cada paciente.

*Nota: Machado de Assis, citação dele em Memórias Póstumas de Brás Cubas sobre a obra:     “Escrevia-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”.

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